segunda-feira, 14 de julho de 2008

Alter ego

Não quero ser eu,

Não gosto de quem sou

Aquele puto que jazeu

Num tempo que já passou.

Que personalidade é esta

Mais forte que a vontade,

Eu quero e ela não,

Que revoltante ansiedade.

Se eu não estivesse aqui,

Se eu pude-se, se eu ousasse

Se eu conseguisse fazer sentir em ti

E a minha raiva não falhasse.

Ai! Se eu pude-se esmagar tudo,

Se eu quisesse esmagar nada.

Maldita sociedade de entrudo

Fazes m minhas veias correr lava

E lágrimas em meus olhos.

E se nada te trava,

Destruem-te os meus sonhos.


22/10/1999   16:25 h

Vazio

Que apatia é esta

Que parece não me largar?

O dormir acordado,

A brutal necessidade de não estar.

Que rumo é este

Que as coisas levam?

Para onde vão? De onde vêm?

Qual o significado do meu ser?

Serei invisível! Não me vêm?

Que dor reina no meu peito,

Que vazio me enlouquece!

Vejo tudo tão desfeito,

Sinto que tudo se desvanece!

Sou nada. Sou zero.

Neste mundo que não pára

Sei que ninguém me conhece, sou um mero

Apagador que não apaga


13/10/1999 Cais do Sodré C: 13:40 h; A: 13:50 h

Familia

Que amor é este que eu desconhecia

Mais forte que qualquer outro

O amor de uma família

Tão forte que me deixa louco.

Como pode alguém tentar

Aos outros este igualar.

Amores há muitos, família só uma,

Pedra rara e preciosa

De que tomo conhecimento

Ao desvanecer-se a bruma

Tão de densa como de perigosa.

Densa por ocultar

O maior amor da tua vida,

Uma família, que um dia podes encontrar

Total e completamente perdida.

Perigosa por que te tira

O melhor que podes ter,

Aqueles que te amam

Aconteça o que acontecer.


11/10/1999 Cais do Sodré C: 13:05 h; A: 13:25 h

Acordar

No começo era o caos,

Nada tinha forma, tudo era indefinido.

Formas mutáveis sem verdades

Que tinham o ter sem o ter tido.

Uma massa purpura de energia culminava

Com o rubro do tudo que ainda não é nada,

Com o saber embutido na lava;

A pedra brutal que é saber que ainda não se sabe.

A primeira consciência do despertar.


8/10/1999

Odivelas Casa C: 4:03 h; A: 4:30 h  manhã

A Descoberta

Tenho uma vida para estragar

E tempo para escrever,

E mesmo que ninguém me queira apreciar,

Vou continuar a viver.

Este Sol que me continua a queimar

É a prova do meu Ser,

De que não me vou entregar

À primeira que aparecer.

A vida continua

Embora eu não queira

Este destino de rua

Sentado numa cadeira.

Sou tão jovem que não me dou conta,

De quão jovem por tudo passei,

E se o destino assim mo deu,

Eu assim o reneguei.

Não consigo parar de chorar

Nem muito menos de estar triste,

Vivi antes do tempo,

Já nada em mim existe.

Sou apenas um poeta

Que só o é para passar o tempo!

Mas à quem nem isso seja.

Devia e estou grato pela minha sorte,

Tenho uma família que me dá tudo

E que lutará por mim até à morte.

Amo-os? Sim! Amo-os mais que tudo,

Para mim eles são tudo.

Se não fossem eles, eu não Era,

Se eles não Fossem, não era eu.

Se eles não existissem

Não haveria razão para viver.

Quando digo estar só, engano-me.

E … Oh meu Deus! Engano-me tanto!

Pois agora vejo quem está,

Quem está realmente só,

Quem passa os dias num banco de jardim,

De lá para cá, de cá para lá.

Estou comovido e quero chorar!

Descobri uma verdade irrefutável.

Estou comovido, já não consigo rimar.

Descobri, descobri a descoberta das coisas,

Que embora exausto, não vou esmorecer;

Que embora sedento, não me vou vingar;

Descobri!  Descobri que posso lutar.


7/10/1999 Cais do Sodré C: 16:00 h; A: 16:30 h

Ferro e carne

Sentado num jardim da 24 de julho,

À torreira do Sol

Num banco de madeira,

Vejo ferro e carne

E lembro-me dela, da ceifeira.

Que aconteceria se ela

Ceifasse a vida a toda a carne?

Coisa tão bela,

E ao mesmo tempo sem charme.

Imaginem toda esta azafama

Reduzida ao zero,

Seria tudo tão belo

E ao mesmo tempo tão fero!

Que curta espera é esta

Que parece tão longa,

Comprida como uma festa

Curta como uma pomba.

Que mundo é este que vejo

E coisas estas que sinto,

Penso saber o que ensejo

Temo saber que minto.

Quem me vê dá-me um beijo,

Quem me olha, lê-me a alma.

Se eu soubesse o porquê do desejo,

Se soubesse porque ele não se acalma.

Vejo ferro, vejo carne.

Vejo fogo, vejo alma.

Sinto a presença do ausente,

Desejava não haver gente

E não ter que o desejar,

Pois sou frio por for a

Mas por dentro quente.

Vejo miséria, talvez,

Talvez como nunca a vi

Com estes olhos que tenho hoje.

Quem sabe quem serei amanhã!

Quem sabe se em vida virá o dia

Em que deixarei de escrever,

Ou quem sabe até já fria

Não se deixe morrer.

Não sei nada e nada saberei

Enquanto procurar o saber!


7/10/1999 Cais do Sodré C:15:00 h; A: 16:00 h

Insistência

Quatro, à já quatro noites

Que tento escrever,

E enquanto penso

A tendência é para adormecer.

Mas esta é a ultima,

E por ela dentro está a acontecer,

Aquilo que faz mover um poeta

A escrever o seu viver.

Tenho as malas prontas

E a trouxa ensacada,

Tudo dentro do carro

Pronto para a jornada.

O suporte já está posto,

As bicicletas montam-se amanhã,

Antes da grande caminhada

Até à minha terra mamã.

Estou aqui no alto da serra

Com paisagens de extasiar,

Mas não consigo esquecer a minha terra

Essa Lisboa junto ao mar.

Tenho paz e liberdade

À luz da Lua e do Sol,

Mas não consigo esquecer essa cidade

De tradição, amigos e rock’n roll.

Sinto-me um antónimo de Cesario

Na pele de um Caeiro,

Quem sabe um pouco de Campos,

Quem sabe, o mundo inteiro.

Que saudades tenho de lá!

Que saudades lá terei daqui!

Ao cantar este fa

Dó, lá, na cidade onde nasci.

Por mim ficava aqui a noite inteira,

Mas tenho que madrugar ás seis

E penso que já passa da uma e meia

Portanto adeus meus reis!

O relógio está a bater as duas

Pelo que já só faltam quatro até ás seis.

Despeço-me então das minhas Luas,

E de vós, meus leitores, meus reis.


No meu quarto em Mareco

28/08/1999  C: 1:00 H; A: 2:00 h am